29 de dezembro de 2010

Reginaldo, Criança Escrava

Ele apareceu em nossa cerca de arame farpado nas últimas duas semanas de Julio, vinha quase todos os dias. Nosso amigo Rick viu alguns guardas dando comida para o menino que aparentava cerca de 8 anos de idade. O garoto não sabia falar e tinha cicatrizes por todo seu pequeno corpo, os guardas disseram que ele estava trabalhando para uma senhora no bairro. Rick e algumas enfermeiras decidiram visitar a tal senhora e lá descobriram uma outra história, infelizmente tão comum no Haiti, o menino era um restavek.

Reginaldo assim se chamava. As enfermeiras tinham visitado um orfanato perto e tomaram a decisão de livrar esta criança da escravidão dando-lhe uma nova oportunidade de vida. Os guardas disseram a Rick que ele precisava ir ao juiz de paz para que pudesse tornar-se responsável pela criança e assim movê-la para o orfanato. Rick imediatamente angariou algum dinheiro, adiou sua passagem para mais um dia e correu para o magistrado. Claro que a senhora que tinha o menino por um bom tempo trabalhando para ela em troca de comida consentiu indo junto com eles. Ela presentiu a oportunidade de "vender" seus direitos.

O magistrado tomou conhecimento da história do pequeno menino e imediatamente deu a Rick o status de "pater familia" ou seja os direitos de cuidar e orientar a pobre criança. Eu fiz a tradução do documento para que Rick pudesse explicar à sua família o que ele acabara de fazer. O núcleo do documento entre outras coisas diz: "a senhora (fulana de tal), residente em (nome) é a única parente do menino Reginaldo (de tal,não escrevo o nome todo pois devo proteger sua identidade), oito anos, ela o encontrou abandonado no mato desde seu nascimento e, desde então, ninguém tem procurado por ele. Agora, ela confia a guarda do menino a Rick (de tal) para manter e educá-lo em regime "pater familias" no Orfanato (nome) localizado na cidade de (nome) parte da Municipalidade (Comune) de Cabaret. "

Restavek, que significa, ficar com (Francês reste avec), tem sido uma prática centenária no Haiti. Diz-se que as famílias ricas ofereciam uma vida melhor às crianças de famílias pobres que não podiam alimentar e dar educação para tantos filhos. Algumas dessas crianças eram bem tratadas, mas a maioria se tornavam de fato escravos domésticos. Hoje, o uso da palavra restavek está ligado às condições de escravos em que essas crianças vivem. Diz-se que a maioria ficam em casa até em torno de 15 anos de idade, quando de acordo com as leis trabalhistas eles podem ser vistas como trabalhadores domésticos o que exigiria vencimentos e proteção legal ao trabalhador.

Reginaldo foi encontrado no mato,assim declarou seu proprietário, já que ela não tinha nenhuma documentação legal. Eu a chamo de proprietária porque parente não era, e toda o vilarejo onde viviam reconhecia o menino como "pertencente" a ela. O juiz de paz passou os direitos a Rick e proibiu a "dona" de receber qualquer dinheiro. Reginaldo foi levado para o orfanato no mesmo dia. Agora ele tem uma casa com alimentos, outras crianças para brincar e, mais importante, a educação. Rick voltou para casa, ele fez um ato de amor que poucas pessoas estariam dispostas a fazer.

Meses depois, vi o Reginaldo vindo ao nosso acampamento, desta vez com a Dra. Kara, a líder de nossa equipe médica. É um quadro que eu guardo com carinho nas minhas lembranças, Dra. Kara, Kayo e outros jogando bola com o menino que uma vez foi um restavek. Ele ainda tem dificuldades para falar, eu acredito que os traumas, cicatrizes em sua cabeça e as memórias de uma infancia funesta, vão levar algum tempo para serem curados, mas hoje Reginaldo trilha um novo caminho. "O amor de Cristo nos compele ..." disse o apóstolo Paulo, este foi e é o sentimento que floresce em tantos atos de amor.

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