Ele apareceu em nossa cerca de arame farpado nas últimas duas semanas de Julio, vinha quase todos os dias. Nosso amigo Rick viu alguns guardas dando comida para o menino que aparentava cerca de 8 anos de idade. O garoto não sabia falar e tinha cicatrizes por todo seu pequeno corpo, os guardas disseram que ele estava trabalhando para uma senhora no bairro. Rick e algumas enfermeiras decidiram visitar a tal senhora e lá descobriram uma outra história, infelizmente tão comum no Haiti, o menino era um restavek.
Reginaldo assim se chamava. As enfermeiras tinham visitado um orfanato perto e tomaram a decisão de livrar esta criança da escravidão dando-lhe uma nova oportunidade de vida. Os guardas disseram a Rick que ele precisava ir ao juiz de paz para que pudesse tornar-se responsável pela criança e assim movê-la para o orfanato. Rick imediatamente angariou algum dinheiro, adiou sua passagem para mais um dia e correu para o magistrado. Claro que a senhora que tinha o menino por um bom tempo trabalhando para ela em troca de comida consentiu indo junto com eles. Ela presentiu a oportunidade de "vender" seus direitos.
O magistrado tomou conhecimento da história do pequeno menino e imediatamente deu a Rick o status de "pater familia" ou seja os direitos de cuidar e orientar a pobre criança. Eu fiz a tradução do documento para que Rick pudesse explicar à sua família o que ele acabara de fazer. O núcleo do documento entre outras coisas diz: "a senhora (fulana de tal), residente em (nome) é a única parente do menino Reginaldo (de tal,não escrevo o nome todo pois devo proteger sua identidade), oito anos, ela o encontrou abandonado no mato desde seu nascimento e, desde então, ninguém tem procurado por ele. Agora, ela confia a guarda do menino a Rick (de tal) para manter e educá-lo em regime "pater familias" no Orfanato (nome) localizado na cidade de (nome) parte da Municipalidade (Comune) de Cabaret. "
Restavek, que significa, ficar com (Francês reste avec), tem sido uma prática centenária no Haiti. Diz-se que as famílias ricas ofereciam uma vida melhor às crianças de famílias pobres que não podiam alimentar e dar educação para tantos filhos. Algumas dessas crianças eram bem tratadas, mas a maioria se tornavam de fato escravos domésticos. Hoje, o uso da palavra restavek está ligado às condições de escravos em que essas crianças vivem. Diz-se que a maioria ficam em casa até em torno de 15 anos de idade, quando de acordo com as leis trabalhistas eles podem ser vistas como trabalhadores domésticos o que exigiria vencimentos e proteção legal ao trabalhador.
Reginaldo foi encontrado no mato,assim declarou seu proprietário, já que ela não tinha nenhuma documentação legal. Eu a chamo de proprietária porque parente não era, e toda o vilarejo onde viviam reconhecia o menino como "pertencente" a ela. O juiz de paz passou os direitos a Rick e proibiu a "dona" de receber qualquer dinheiro. Reginaldo foi levado para o orfanato no mesmo dia. Agora ele tem uma casa com alimentos, outras crianças para brincar e, mais importante, a educação. Rick voltou para casa, ele fez um ato de amor que poucas pessoas estariam dispostas a fazer.
Meses depois, vi o Reginaldo vindo ao nosso acampamento, desta vez com a Dra. Kara, a líder de nossa equipe médica. É um quadro que eu guardo com carinho nas minhas lembranças, Dra. Kara, Kayo e outros jogando bola com o menino que uma vez foi um restavek. Ele ainda tem dificuldades para falar, eu acredito que os traumas, cicatrizes em sua cabeça e as memórias de uma infancia funesta, vão levar algum tempo para serem curados, mas hoje Reginaldo trilha um novo caminho. "O amor de Cristo nos compele ..." disse o apóstolo Paulo, este foi e é o sentimento que floresce em tantos atos de amor.
Socorro! O pastor quer judaizar o cristianismo.
1 hora atrás



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